terça-feira, 5 de janeiro de 2010

A Volta dos Mortos-Vivos (1985) & Pontypool (2008)

Dois filmes diferentes, mas bem parecidos.
(Ou um texto cheio de conjunções adversativas.)


Um dos subgêneros mais adaptáveis do horror, certamente, é o filme de zumbi. Relacionado originalmente ao vodu haitiano, o cinema apropriou-se destes cadáveres redivivos e criou uma onda de filmes com infinitas possibilidades. Porém, ainda que dinâmico, o filme de zumbi acaba quase que sempre caindo em um lugar-comum: a propriedade de filme-denúncia, abordando em especial as questões sociais.

Ontem assisti a dois exemplares do subgênero: o cultuado A Volta dos Mortos-Vivos e o comentado Pontypool. O primeiro, ainda que um tanto datado devido à música, ao figurino e a outros exageros oitentistas, é um marco na filmografia dos mortos-vivos e virou referência constante na cultura pop mundial.


Um simpático zumbi animatrônico em A Volta dos Mortos-Vivos.


Em A Volta dos Mortos-Vivos, um descuidado funcionário de um depósito libera uma substância química altamente agressiva, despertando todos os mortos da redondeza, onde, convenientemente, há uma casa funerária e um cemitério (adequadamente chamado Ressurreição). Um grupo de adolescentes punks acaba servindo de refeição para os cadáveres famintos de cérebro humano. A iguaria, segundo o depoimento de um zumbi capturado, alivia neles a dor de estar morto. Esta comédia não poupa excesso sequer nas atuações, extremamente barrocas, e também no apelo visual, com muitas cenas mórbidas e chocantes. Dirigido por Dan O’Bannon, responsável por roteiros de filmes como Alien, o 8º Passageiro (1979), e baseado em livro de John A. Russo, roteirista de A Noite dos Mortos-Vivos (1968), subverte algumas regras deste e recria outras, oferecendo novas possibilidades aos filmes que viessem a seguir.


Horror em widescreen.


Pontypool é um daqueles filmes que muitos taxariam como “suspense psicológico”. Os ingênuos diriam “não dá medo, não é horror”, e os preconceituosos, “é bom demais para ser horror”. Independente do que possa ser dito, possui todos os elementos de um filme de zumbi, e apresenta ainda uma solução para problemas de baixo orçamento: pequeno elenco e apenas um cenário, uma estação de rádio numa cidadezinha canadense. Toda a ação do filme limita-se ao radialista, sua produtora e uma jovem assistente, que descobrem através de um repórter que uma multidão de pessoas tem agido de forma estranha, pronunciando insistentemente certas palavras que agem como uma espécie de vírus. A partir daí, os infectados adotam uma conduta violenta, descrita pelo repórter como atos selvagens, relativos a piranhas ou a verdadeiros canibais. Nada disso é mostrado. A violência visual é mínima. Na primeira metade, ao apresentar para os espectadores as características dos personagens, o filme demora a engatar, beirando o insuportável; ainda que passe por uma evolução quase que imperceptível na segunda metade, valendo-se de muitos diálogos (o que, pela lógica da trama, deveria ser evitado!) e de poucas cenas realmente tensas.

Aqui, nota-se um discurso anti-bélico, pacifista, confirmado pela crítica à mídia sensacionalista e a participação negativa do exército (presença importante tanto neste filme, quanto em A Volta dos Mortos-Vivos). O relacionamento entre os diferentes tipos sociais e outras questões individuais, temas que enriquecem este subgênero, são também comuns aos dois exemplares.

5 comentários:

  1. Assisti A VOLTA DOS MORTOS-VIVOS no cinema, com uns 15 anos, e lembro que a galera ficava meio desconcertada com o humor do filme. Era estranho, na época, ver horror com humor; aliás, até hoje tem gente que não consegui diferir muito isso. Revi poucas vezes depois disso e não tenho em DVD, senão seria uma ótima pedida como homenagem ao grande roteirista Dan O'Bannon, falecido recentemente. Quando ao PONTYPOOL, confesso que não me animei a assistir, mas qualquer dia vou acabar vendo, só para conferir mais uma possibilidade dentro do tema dos zumbis. O texto está muito bacana e faz a gente querer ver mais filmes de zumbis. Aliás, não recomendo nenhum dos outros quatro da franquia RETURN OF THE LIVING DEAD (exceto o terceiro, para quem tiver fetiche pela Mindy Clarke cheia de piercings, cacos de vidro e cicatrizes...).

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  2. Bia,

    Este seu tema de hoje só me lembra as loucuras do Levi, às voltas com os "zumbires" dele. Muito lindo: "Cuidado, vó! 'Fasta', sai do meio, senão os 'zumbires' vão comer seu cérebro...Ahahahah..."!!! Embora eu nunca tenha assistido um filme do gênero - até porque não sou de assistir filmes de nenhuma espécie - adorei o texto: gostoso de ler e de um português impecável, como sempre!

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  3. "Tem medo não, vó, é só um zumbizinho! Ele só gosta de cérebro!". Para os que não sabem, Levi tem cinco anos, é, totalmente, desassombrado, e adora filmes de zumbis. Diz que sou bebê e que por isso não posso ver os filmes. Mas ele, sim, pode. Sabe tudo que é nome de filmes e de jogos de cór. Ele é muito engraçado e inteligente!

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  4. Ele é muito fofo mesmo, mãe. Um amor!

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  5. oi, legal a comparação entre dois filmes de diferentes épocas e pontos em comum.
    também tenho blog, o olhar cinéfilo.

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